Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A vida das mulheres num mundo essencialmente masculino

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.06.09

 

No meu tempo de colégio em Coimbra, que coincidiu com a Primavera marcelista, gostava de admirar as alunas veteranas do 6º e 7º anos (actuais 10º e 11º), que surgiam, aos meus olhos pré-adolescentes, como personagens romanescas: já tinham um namorado com quem se correspondiam, nesse tempo era assim, e vestiam de forma muito feminina (quando eu vinha familiarizada com o “estilo arrapazado” dos anos 70, das calças no inverno e dos calções no verão, provavelmente influência british no espaço-tempo onde nasci).

Foi a ouvi-las atentamente que fiquei a saber que o seu livro obrigatório no programa de Literatura Portuguesa era o Eurico, o Presbítero, de Herculano, e que um dos livros por elas mais lidos tinha um título muito moral e filosófico: Orgulho e Preconceito.

De tantos livros que vira nas estantes lá em casa nunca tropeçara naquele nem na sua autora, Jane Austen. Estranho... O mais engraçado é que entretanto já vi três filmes baseados em romances seus, primeiro o Emma, a seguir Sensibilidade e Bom Senso e depois este Orgulho e Preconceito e nada de ler os livros.

Portanto, foi pelos filmes que fiquei a conhecer as suas fabulosas personagens femininas. Sim, as personagens femininas de Jane Austen são adoráveis criaturas! Bem, nem todas, claro está, refiro-me apenas às personagens principais. Mulheres inteligentes e muito práticas, responsáveis por si próprias e pelos seus. E que valorizam os afectos de uma forma abnegada e leal. E de um raciocínio estratégico fundamental para poder sobreviver num mundo masculino.

Vi num documentário alguém chamar a atenção para esta característica nos romances de Jane Austen: não se fixa apenas no que é público, no social, mostra igualmente a realidade dos bastidores, da vida familiar, das preocupações financeiras, das dúvidas em relação ao futuro, das vidas das mulheres que procuram manter a qualidade de vida da sua família e a sua imagem ou estatuto social.

 

Neste Orgulho e Preconceito seguimos os acontecimentos pela perspectiva de Lizzie, a segunda filha de um casal brasonado que vive em pleno campoinglês. Além das qualidades geralmente presentes nas personagens femininas de Jane Austen, esta jovem mulher é muito decidida e orgulhosa. Funciona aliás como um pilar da família, mantendo a sensatez que contrasta com a superficialidade da mãe e a irresponsabilidade das irmãs mais novas. Tem uma grande cumplicidade com o pai, o único capaz de reconhecer o seu valor, e uma grande proximidade com a irmã mais velha, a que, das cinco irmãs, consegue conciliar beleza e simplicidade.

 

Um breve intervalo aqui para decidir como irei pegar neste filme de que gosto muito e que revi há dois dias na TVI, à meia noite (estes horários dos filmes na televisão é que não são nada adequados)...

 

Retomo aqui o fio à meada pela forma como, em Jane Austen, as personagens femininas mais interessantes são as que se apoiam mutuamente - as irmãs que são amigas, as amigas que são irmãs. Parte da sua força está nos laços subtis que vão entrelaçando entre si, de amizades que se alimentam com muito respeito e dedicação. Só assim também as suas vidas se podem tornar mais agradáveis e mesmo toleráveis, num mundo essencialmente masculino.

Referi aqui as personagens femininas mais interessantes, as protagonistas, que me parecem funcionar em Jane Austen como modelos que representam valores morais: a coragem, a amizade, a lealdade, a abnegação, a sensatez, a sensibilidade. A sua consistência está precisamente em não serem perfeitas e em terem uma mente autónoma, a consciência da realidade, dos condicionalismos da sua vida. Em algumas vemos o orgulho, noutras a determinação, noutras ainda a timidez. Todas observam o mundo em redor, há uma curiosidade natural pelas pessoas e pelas suas vidas, nenhuma se fecha sobre si própria ou se aliena em ilusões ou fantasias.

As personagens femininas de Jane Austen também são um pilar da família: a filha que se sensibiliza com a ingenuidade da mãe, a filha que se dedica ao pai, a filha que protege a família.

E há as personagens femininas secundárias, as pueris, as superficiais, as egocêntricas, as altivas, as dominadoras, as implacáveis. Todas as variantes de uma natureza feminina numa época tão limitativa para as opções de um percurso interessante.

É aqui que vejo a grande eficácia das mulheres de Jane Austen: para viver naquele cenário masculino, a ginástiva mental e emocional que precisam de treinar! A capacidade de observação e de inteligência prática, para antecipar acontecimentos ou despoletar outros que possam jogar a seu favor!

É certo que Jane Austen se dedica a analisar uma classe social com alguma margem de manobra, não é a vida-escravatura das mulheres sem quaisquer recursos. Mas nesta classe, as mulheres vivem diariamente o medo de perder o seu nível de vida ou de ver a família em dificuldades financeiras. Elaboram constantemente contas de cabeça, rendimentos ao ano, que podem fazer a diferença entre uma vida com algum conforto ou uma vida com muitas privações.

 

Voltando ao Orgulho e Preconceito, o que mais me impressionou:

- o movimento de todo o filme, desliza suavemente sem quebras ou sacudidelas, sem paragens bruscas nem atropelos, perfeito;

- as cenas dos dois bailes: a primeira, pela sua espontaneidade e alegria estonteante, tanto dos que dançam no salão, como nos que se passeiam pela casa, as conversas, os comentários; a segunda, pela coreografia poética, a revelar uma atracção entre aqueles dois aparentemente tão diferentes;

- a forma natural como vamos conhecendo as personagens, pelo seu comportamento e atitude;

- as cenas de bastidores da família Bennet, a forma como se adaptam a diversos registos e a diversas circunstâncias;

- a fotografia, aqueles enquadramentos clássicos, aqueles palacetes, aqueles jardins, o campo inglês...

 

Este é o papel de Keira Knightley, uma Elizabeth encantadora. Mr. Darcy aqui em jovem romântico tímido, mais belo e frágil do que a descrição que dele fazem as outras personagens e outras ainda de um outro filme, You' ve Got Mail, na conversa-duelo daqueles outros dois...

Os homens aqui em diversas paletas: o gentleman e amigo leal, o pai protector-afável e marido tolerante, o oportunista-arrivista, o ambicioso-servil, o ingénuo-carinhoso.

 

Ainda gostaria de voltar, um dia destes, a esta época de vidas simples em tempos difíceis, pela voz sensata de Jane Austen e o olhar poético de Ang Lee, no Sensibilidade e Bom Senso, que tanto me impressionou...

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:51

Paul Newman e Joanne Woodward

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.07.08

 

Hoje, só um desafio aos que gostam, como eu, de personagens. Vou só alinhavar este post sobre Paul Newman e Joanne Woodward, com um filme fascinante: The Long, Hot Summer.

Não sei se foi neste filme que primeiro se degladiaram como personagens. Se foi, foi o melhor início possível da magia que se seguiu. Quando os dois conversam no alpendre da casa senhorial, tudo é denso, intenso e enigmático! Esta intensidade é a da dimensão das personagens!

 

A seguir, irei avançar na magia do filme, pelo menos como eu o vi. E o que registei para sempre.

Passados tantos anos, o impacto visual, as personagens, os diálogos, ainda estão vivos num lugar onde só se guardam as coisas amadas. Devo ter visto este filme uma única vez, na televisão, na década de 70, talvez finais, na televisão. Nem sei se o filme é a preto e branco, mas foi assim que o vi. (Nota) E se voltar a vê-lo é assim que o quero ver.

 

Nos anos 50 e 60 surgiram obras-primas no cinema, irrepetíveis. Sobretudo as que transportaram para a linguagem do cinema a poesia dos textos literários. Aqui trata-se de uma novela de William Faulkner.

E é aqui, na linguagem do cinema, que as personagens melhor se movimentam! A fotografia, as sequências, os planos, dão-lhes a dimensão intemporal. As personagens são intemporais e este é o seu lugar mágico. Só nós vivemos num tempo-espaço definido e mutável.

 

Em The Long, Hot Summer... a densidade, a intensidade das emoções e conflitos, numa família sulista, numa mansão de amplos jardins e celeiros próximos. O patriarca manipulador que quer descendência - a eterna questão da imortalidade -, o filho mais velho que se sente desprezado, a filha relutante em casar e o empregado que vem desestabilizar o falso equilíbrio familiar.

E é Paul Newman e Joanne Woodward, o par mágico, único no cinema!

 

 

 

(Nota)Afinal, o filme é a cores. É engraçado pensar que todos os filmes que vi na televisão, que no nosso país só se tornou colorida em 80 (a sério!), os vi a preto e branco! É que os melhores filmes que vi foi na televisão, nos ciclos de cinema que programaram. Estes ciclos são cada vez mais raros, mas estamos na geração do DVD...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:43

Picnic ou a dança nupcial

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.02.08

Já viram a dança nupcial dos grous? Em Picnic há a dança nupcial, a poesia, a graciosidade, o bailado de dois grous humanos: Kim Novak e William Holden. A poesia em estado puro, antes de todas as palavras.

A figura que liga as várias personagens, que as entende, sentimentos e emoções, desejos e sonhos, fragilidades e coragem, é a velha senhora que mora ao lado da mulher e das duas filhas. Acolhe o rapaz que chega com a roupa do corpo e dá-lhe trabalho. Dirá de forma encantadora, É bom voltar a ter um homem cá em casa. De certo modo é ela a repor no rapaz a noção de dignidade perdida nos azares da vida. Acredita nele, nas suas capacidades, antes mesmo da rapariga.

Mas a sociedade tem formas de incluir e excluir conforme os seus interesses. Kim tem acesso ao seu lugar pela sua incrível beleza. Em William a beleza e o porte atlético jogarão contra si. O futuro de uma pessoa pode ser terrivelmente condicionado por preconceitos mesquinhos, pela mediocridade dos poderosos.

O que ninguém conseguirá condicionar é a maravilhosa força da natureza. Quando algumas pessoas se encontram acontece a poesia. É mágico! Não é muito frequente, é até uma sorte dos diabos isso acontecer… é o que nos diz este filme. Que seria um terrível pecado perder essa oportunidade de redenção (para ele), de ser amada (para ela). E há que vencer o medo de não conseguir realizar os sonhos: uma última oportunidade no caso do rapaz; o desejo de ser tratada como mais uma rapariga, no caso da rapariga; ver a filha integrar-se na melhor sociedade da cidade, no caso da mãe da rapariga.

Mil vezes a doce e frágil felicidade do que o conformismo e a desistência. O preço a pagar pela felicidade pode matar a própria felicidade, mas eles estão dispostos a arriscar. Porque a alternativa seria ainda mais terrível! E até pode ser que tenham sorte. Eles não hesitam, não têm dúvidas. Eles sabem, antes mesmo de falar. Há laços invisíveis a uni-los. E isso vê-se na dança, no tal picnic…

No fundo sabemos que têm a coragem e a inspiração para ultrapassar tudo isso. Mesmo contra todas as probabilidades. Tão poética nos surge Kim, de mala na mão, a despedir-se da mãe e da velha amiga da família, antes de seguir William nessa aventura...

 

Muitos dias depois... encontrei o Picnic neste outro lugar... que já me deu o Rio sem Regresso (como surpresa).

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:33

Nada substitui a companhia de outro ser humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.12.07

All that Heaven Allows. Uma mulher na sua viuvez conformada. Vários filhos. Família típica americana dos anos 50. Uma vida aparentemente perfeita. E uma empatia que nasce, a alegria de uma companhia com alguém genuíno, livre, que coloca os afectos à frente das convenções sociais.

Os filhos seguem as suas vidas, vão para a universidade. Ela fica sozinha. O egoísmo inconsciente da juventude! É mais confortável manter a mãe condicionada ao papel de mãe, mesmo já não precisando dela como antes. Irão insurgir-se contra o afecto da mãe por esse homem mais jovem. Irão querer substituir esse afecto, essa companhia, por uma televisão.

No filme, a mulher não desiste do afecto e da companhia. Até porque aprecia a companhia deste homem… calmo, afectuoso, sensato, culto. A casa reflecte isso mesmo, um espaço que acolhe, que aconchega. É essa ideia que fica a sobressair, a de uma companhia.

Magnífica previsão da solidão actual. Substituem-se pessoas, uma companhia, por uma televisão ou por um computador. Mas já não são apenas os mais velhos, os solitários sem alternativa. Agora são os próprios jovens a preferir o computador ao contacto humano.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:42


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D